Se quiser saber o significado de uma palavra, digite o nome em algum site de busca e voilá: prontamente você tem o resultado. Não é diferente quando se quer informação sobre um determinado profissional; preço de um automóvel ou qualquer outra curiosidade. A internet está pronta para lhe fornecer a resposta.

Já tivemos oportunidade, nesta coluna, de abordar os benefícios e malefícios que o mundo digital oferece a todos nós. Para tentar ficarmos imunes aos vírus da desinformação, uma das dicas é manejar sempre uma plataforma de busca.

O Google, é um desses veículos, por exemplo. Criado como uma empresa privada, e com a missão de organizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil, tem sua página executada através de mais de um milhão de servidores em data centers ao redor do mundo e processa mais de um bilhão de solicitações de pesquisa e vinte petabytes de dados gerados por usuários todos os dias.

A empresa oferece softwares de produtividade online dos mais diversos e investe maciçamente em mecanismos de aperfeiçoamento. Foi nesse escopo que um recurso chamado Knowledge Graph, um sistema capaz de compreender fatos sobre pessoas, lugares e coisas e como tudo isso se conecta. O objetivo é trazer respostas, e não mais apenas links para certas páginas. Hoje, se, por exemplo, alguém pesquisar “sintomas gripe”, será levado diretamente a um guia com os sintomas da doença. Mais do que isso, serão exibidas também dados sobre a doença, contágio, diagnóstico, tratamento e outros detalhes.

Diante dessa facilidade estupenda, o número de pessoas que se automedicam tem crescido de forma avassaladora. Aliás, o incauto ou incauta além de encontrar a cura para os seus males, fecha o browse de sua tela convicto do diagnóstico da doença!

A desenvoltura propiciada pela era da informática impulsiona, inclusive, o surgimento e ressurgimento de charlatões, distribuindo medicações e soluções para as mais variadas doenças, tudo sob a égide do Dr. Google.

Não precisa ser tão esperto para concluir que essa busca inconsequente pela automedicação conduzirá o “paciente” à falência de sua saúde. Mas esse vale do silício da informação tem muito mais desdobramentos do que imaginamos.

Está claro ou pelo menos deveria estar que não se deve esperar que a internet possua informações suficientes para a cura das nossas enfermidades à despeito de um tratamento médico eficaz. Contudo, o arcabouço digital vem se notabilizando como instrumento de debate entre paciente e médico nos consultórios do país. Qual o médico que ainda não se deparou com alguém questionador ao extremo, que refuta suas indicações e contesta com frequência a eficácia de um determinado medicamento? Se ainda não foi você, aguarde, pois, esse “ser” está próximo a se consultar contigo.

Contudo, não somente os sites de busca permeiam essa relação milenar entre paciente e médico. As redes sociais têm protagonizado um estreitamento entre as partes, salutar por um lado, mas incomodo e até perigoso por outro. Pacientes lotam as caixas de mensagens de WhatsApp; Messenger etc. com pedidos de receitas, fotos de machucado e aquele famoso pedido de exame virtual.

Até meados do século XX os médicos ficavam blindados desse assédio voraz dos pacientes. Não havia essa ingerência digital que invade o consultório e muitas vezes os lares desses profissionais. Há um desafio premente para que possamos lidar com essa velocidade que a internet infunde, e ao mesmo tempo estabelecermos normas que preserve nossa privacidade, sem que isso seja encarado como um desdém ou pouco caso com a principal peça dessa engrenagem que é o cliente.

Educação, no sentido de regular comportamento seria a melhor saída, no entanto, isso ainda nos parece um pouco utópico. Então, a alternativa deve partir do próprio profissional impondo ao cliente a conduta adequada ao caso, seja não adotando as redes sócias como veículo. Não retornar mensagens talvez signifique um sinalizador educativo. Entender que essa prática pode não só trazer complicações profissionais ao médico, sob o ponto de vista jurídico, mas acabar desqualificando a prestação do serviço também é outra razão para desestimular esse hábito nocivo.

Decerto, precisamos refutar qualquer tipo de profissional que se incline a cair nessa armadilha digital, pois esse procedimento de atendimento por rede social afronta os preceitos éticos da medicina. Em outro contexto, o paciente por sua vez deve entender e respeitar os limites que essa intrínseca relação impõe.

Jansen dos Santos Oliveira – Advogado da SRRJ.