“ Minha Pátria é a Língua Portuguesa “. Gosto muito dessa frase de Fernando Pessoa, que nada tinha de sentimento político ou social, mas sim de apreço ao português bem escrito, com sintaxe e ortografia cuidadosa.  Língua Portuguesa que sempre nos brindou com grandes escritores, como Camões, Eça de Queiróz, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Florbela Espanca, Guimarães Rosa, Antonio Lobo Antunes, Lima Barreto. José Saramago, Camilo Castelo Branco, Manoel de Barros, além do próprio Pessoa; mas que andava meio modorrenta nas últimas décadas, exceto por alguns brilhantes textos de Saramago e de Lobo Antunes.
       Eis que nos últimos anos, tivemos belas surpresas, com vigorosos textos vindos principalmente de países africanos de língua portuguesa, aos quais antes tínhamos pouco acesso, trazendo novas vozes ou vozes ainda pouco conhecidas. Verdadeiro testemunho da vitalidade (ou revitalização?) da língua portuguesa e em particular da literatura desses países e também da extraordinária riqueza de nosso idioma e do muito que ele nos aproxima.
       Desses gostaria de dar destaque especial a 3 excelentes escritores, dos quais tive oportunidade de ler grande parte da obra: Mia Couto (Moçambique), José Eduardo Agualusa (Angola) e Valter Hugo Mãe (Angolano, radicado desde muito jovem em Portugal). Hoje em dia no meio de uma multidão de escreventes, pouco deles merecem como essa Trinca, o qualitativo de escritores. Estetas da língua portuguesa que deixariam Pessoa orgulhoso, além de grandes contadores de história.
        O Escritor e Biólogo moçambicano Mia Couto, superpremiado e traduzido em diversos idiomas, é um dos preferidos da casa. Tem obra literária diversificada, incluindo contos, romance, poesia e crônicas. Utilizando-se de linguagem marcadamente poética, usa o léxico de várias regiões de seu país para produzir um novo modelo de narrativa africana.
        De Angola vem José Eduardo Agualusa, escritor e jornalista, escreve contos para vários jornais, incluindo O Globo, tem texto envolvente, com grande fundamentação histórica e fluência na descrição de episódios burlescos, sentimentais e maravilhosos. Os romances povoados de aventuras converteram esse angolano em figura popular no meio cultural. Se autodenominando afro-luso-brasileiro, ele não apenas adora o Brasil, como tem no país uma das fontes mais poderosas de suas histórias.
        Dos 3 acima citados, sem dúvida o mais instigante é Valter Hugo Mãe. Com obra repleta de poesia e desassombro linguístico, o escritor, cantor, apresentador e artista plástico explora os limites da beleza de nosso idioma. O primeiro contato com seus livros pode ser desconcertante, até meio desconexo, mas tudo é parte de habilidosa construção, cuja arquitetura só se percebe no avançar da obra. Sobre seu livro “ O Remorso de Baltazar Serapião”, dizia o grande Saramago: “um verdadeiro tsunami literário, um novo parto da língua portuguesa “.
         Apesar do protagonismo desses excelentes escritores, outros de grande qualidade podem ser lidos com semelhante prazer. De Angola nos chegam nomes como Pepetela e Ondjaki.  Artur Carlos Mauricio Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudônimo de Pepetela, tem consistente obra que reflete sobre a história angolana e seus problemas sociais, tendo participado diretamente da guerra pela libertação de seu país, militando no MPLA. Hoje é professor da Universidade de Luanda e um dos maiores críticos da sociedade angolana. Ondjaki, pseudônimo do jovem Ndalu de Almeida é escritor, sociólogo, ator e artista plástico tem sua obra traduzida em diversos idiomas, além de diversas exposições individuais de suas pinturas. Atualmente mora no Brasil, no Rio de Janeiro.      
         Outros escritores que merecem atenção são: Patricia Reis, das mais originais vozes da atual literatura portuguesa, Miguel de Souza Tavares, além dos Cabo-verdianos Manuel Lopes e Germano Almeida.
        Vale, portanto, muito a pena conferir o atual cenário da literatura de língua portuguesa. E para não perder a mania, vamos à habitual lista de dicas:
 
1.       Terra Sonâmbula – Mia Couto
2.       O Vendedor de Passados – José Eduardo Agualusa
3.       Mayombe – Pepetela
4.       Os da Minha Rua – Ondjaki
5.       Equador – Miguel de Souza Tavares
6.       Amor em Segunda Mão – Patricia Reis
7.       Homens Imprudentemente Poéticos – Valter Hugo Mãe
8.       A Máquina de Fazer Espanhóis – Valter Hugo Mãe
9.       Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra – Mia Couto
10.   O Testamento do Sr. Nepomuceno –  Germano Almeida
11.   Barroco Tropical – José Eduardo Agualusa
12.   Os Flagelados do Vento Leste – Manuel Lopes

Autor: Walkir Fernandes Junior