Estamos próximos a decidir o comando da nossa nação. Dois candidatos, como tem sido desde a nova República brasileira, enfrentam-se em um segundo turno. Nesta fase, seus projetos de campanha são realçados e ratificados proporcionando ao cidadão maturação de seu voto ou até mesmo mudança. A regra eleitoral de hoje impõe uma campanha menos glamourosa e mais distante do fascínio e contrapesos dos “patrocínios” oferecidos por empresas, pois somente é aceitável a doação limitada de pessoa física para a empreitada eleitoral de cada partido.
A tentativa de coibir o “toma lá da cá” é evidente e vai ao encontro de uma sociedade que anseia por um nível de corrupção “sustentável”.
Teríamos, assim, tudo para assistirmos a uma disputa emblemática por cargos políticos, considerando todas essas nuances e, ainda, pela necessidade de o país ter um representante que possa cumprir seu mandato de forma ininterrupta.
Contudo, apesar de um cenário de regras favoráveis para que tivéssemos um pleito eleitoral do mais alto gabarito, não é dessa forma que temos vividos.
A capilarização de ideias, a linha imaginária que divide o país entre “nós e eles”, fomentada muito antes dessas eleições, diga-se de passagem, a revolta e a insatisfação de uma população banhada pelo mar de corrupção que lambeu praticamente todas as instituições brasileiras, a intolerância crescente viralizada por meio de uma internet hospedeira de frustações, preconceitos e patologias graves do ser humano, e acima de tudo por uma irritante falta de conhecimento sobre a maioria das coisas. Esse conjunto estabeleceu um coquetel perigoso e nefasto de um ódio que vem arrebatando e abalando os mais diversos relacionamentos, desde os mais superficiais até aqueles estabelecidos pelos nós consanguíneos.
Em virtude da intransigência com a opinião alheia, polarizamos ideias e elegemos como inimigos o contraditório.
Assim como não há governo corrupto e povo honesto, também não há político ruim e um voto bem feito.
Enquanto agredimos uns aos outros, as más escolhas sorrateiramente apoderam-se das urnas, ocasionando uma enxurrada de políticas governamentais esdrúxulas e ineficazes.
Somos ao mesmo tempo vítimas e autores de nossa própria torpeza. Somos cúmplices das sombras que escurecem os caminhos de nossa nação.
E o que fazer daqui para frente, já que a árvore do ódio parece florescer mais a cada dia, gerando frutos precoces e amargos?
A senha, talvez, seja o respeito à democracia. A reverência à escolha de cada um, ainda que nos pareça absurda. O acatamento da vontade da maioria, soberana sobre todas as coisas.
Com isso, não produzir notícias falsas e tampouco compartilhar contribui especialmente para um discernimento mais honesto dos assuntos.
Os candidatos, por sua vez, precisam dar o exemplo, não só deixando de lançar as fake news, como também pautando pela manutenção dos ditames máximos de nossa sociedade, qual sejam àqueles talhados em nossa Constituição da República Federativa.
Notícias de descumprimento à Carta Magna surgiram de ambos os lados e o alerta atingiu rapidamente seu máximo, pois esse é um sinal claro de um rompimento com a democracia.
Nas ruas, um bradar de uma nova constituinte assusta e ao mesmo tempo nos deixa confusos. O tema é abrangente, e por isso voltaremos a nos dedicar a ele de forma exclusiva ainda neste mês.
Por ora, o que devemos ter com clareza é que nenhuma constituinte é legítima se reduzir os direitos fundamentais defendidos através da Carta vigente. E para tanto, somente através do Congresso Nacional, por meio de emenda, é que poderemos alterar o texto constitucional. Qualquer movimento contrário significará um atentado à democracia e estaremos novamente abraçados pelo poder autoritário.
Decerto, diante dessa atmosfera de desconfiança que toma conta das duas escolhas presidenciáveis, é de suma importância que não abandonemos o pós-voto, cobrando, fiscalizando e exigindo acima de tudo o cumprimento das promessas de campanha, bem como o respeito à nossa Constituição da República Federativa.
Se faremos nosso dever de casa, só saberemos depois. Por isso, voltamos a pergunta feita no célebre, premiado e festejado samba da União da Ilha do Governador, composto por João Sérgio:

Como será o amanhã? – Responda quem puder…

Autor: Dr. Jansen Oliveira
Consultor jurídico da SRRJ