O que prometia ser uma solução para economizar os gastos com saúde e ao mesmo tempo garantir uma agenda cheia de atendimentos para os médicos, na atualidade, se apresenta como uma faca de dois gumes que deixa ambos os lados insatisfeitos.

A baixa remuneração aos serviços médicos prestados (consultas e procedimentos) pelas operadoras de saúde, intercaladas pelo atraso no pagamento ou falta dele (as chamadas GLOSAS) e o constante aumento das mensalidades pagas pelos usuários (regulamentadas pela Agencia Nacional de Saúde), em paralelo com a diminuição das vantagens oferecidas (estreitamento da rede credenciada, falta de opção de laboratórios e rede de imagem) têm deixado muito a desejar.

Por um lado, a principal razão das reclamações dos profissionais médicos em relação aos planos de saúde é justamente o baixo valor de capital pago pelas consultas, que é muito inferior ao valor praticado no mercado. Convênios de saúde pagam uma média de R$ 60,00 por consulta para um profissional que investiu em sua formação durante seis anos de dedicação exclusiva na faculdade de medicina, mais dois a seis anos de especialização e residência médica, que deve estar em constante atualização sobre as publicações e evidências cientificas na sua área de atuação, comparecendo a cursos, congressos e simpósios. Além disso o plano de saúde não paga pelo retorno do paciente ao consultório, estando o profissional médico obrigado a prestar atendimento especializado como rege as boas práticas éticas da medicina sem qualquer valor recebido. Este baixo valor obriga o médico a atender cerca de seis pacientes por hora para garantir uma remuneração digna no final do mês e honrar com as despesas do consultório e familiares, ou então, a estender sua jornada de trabalho para além das oito horas diárias. Com estes cálculos, cada paciente tem o seu atendimento restrito a cada 10-15 minutos, o que é incompatível para uma investigação clínica de qualidade e que muitas vezes costuma ser interpretado com descaso do profissional. Devemos lembrar ainda da burocracia expressa através de pagamentos de impostos, péssimas condições de trabalho, interferência na autonomia profissional pela tentativa de gerenciar a agenda do profissional através de sistemas eletrônicos e educação continuada para reduzir a solicitação de todos os exames complementares, em especial os exames de imagem de mais alto custo.

Uma alternativa a este fato seria cobrar um valor mínimo de mercado para sua consulta particular e fornecer o recibo para que o paciente solicite reembolso pelo plano de saúde, tendo o paciente a opção de escolher um profissional de confiança e a certeza de um bom atendimento médico prestado.

A decisão pelo atendimento através de operadoras de saúde ainda necessita de uma boa capacidade de gestão, além de custos extras expressos pela necessidade de contratação de mais secretárias, atendentes e faturista, equipe essa essencial para lidar com procedimentos muitas vezes complexos demandados individualmente pelos mais diversos planos de saúde, já que nós médicos não dispomos de muito tempo livre.

Portanto, colegas, vamos repensar as nossas prioridades!!!

Dra. Tatiana Melo Fernandes
Reumatologista da SRRJ
Mestre em Clínica Médica/Colagenoses Pela UFRJ
Especialista em Reumatologia pela SBR