Iniciei o consultório de reumatologia em 1997, assim que conclui minha formação na UERJ e passei na prova de Título de Especialista.

Jovem, iniciando a vida profissional e com muito gás para trabalhar, logo fui credenciada por dois grandes planos de saúde.

Há um ano, ou seja, após 20 anos de consultório, não estava feliz com a minha prática profissional. Sempre muito atarefada, agenda lotada, muitos laudos e retornos telefônicos após os atendimentos e, principalmente, muita responsabilidade para pouca remuneração. Comecei a adoecer com muita frequência. Alguma coisa estava errada.

Contratei uma assessoria para analisar a viabilidade econômica do consultório sem planos de saúde. Levei muito “puxão de orelha”, quanto à divulgação do meu trabalho e organização financeira. Pontos positivos também foram ressaltados, como a importância e a complexidade da nossa especialidade.  No final da análise, que levou em conta número de colegas na minha cidade, poder aquisitivo da cidade, abrangência da área de atendimento e outros cálculos de economista, 4 cenários me foram apresentados: Pessimista, Neutro, Otimista e Muito Otimista.

No “Neutro” minha retirada se igualaria a com os planos de saúde.

Há 7 meses tomei coragem e cancelei todos os planos de saúde. Os 3 primeiros meses foram desesperadores. Pouco a pouco, o movimento está melhorando. Hoje, me encontro no cenário “Neutro” a caminho do “Otimista”. Trabalhando menos, com mais calma, mais feliz e com a mesma retirada. Apesar de não ter retido muitos pacientes dos planos que tinha, tem sido muito interessante o grande aumento da marcação de novos pacientes. Muitos referem já terem tentado marcar em outras ocasiões com dificuldade de horário e desistiram.

Ainda não estou tranquilíssima com essa decisão, mas parece que vai ficar tudo bem.

Questiono se desde o começo, já deveria ter iniciado a construção do consultório sem os planos. Por um lado é uma maneira de divulgar o seu nome, por outro praticamos uma especialidade de conhecimento muito amplo, variado e especializado. A remuneração praticada pelas operadoras de saúde é abusiva e o trato com os médicos muito desrespeitoso. Somos poucos quando comparados, por exemplo, aos cardiologistas e somos organizados. Não será a hora de tomarmos os anestesistas como exemplo e nos desvencilharmos das operadoras de saúde?

 

Autora: Marisa Grandelle

Reumatologista da SRRJ