O Médico e o Monstro. Os mais novos devem não lembrar, é o título do famoso filme americano cujo nome originalmente era Dr. Jekyll and Mr. Hyde. O longa foi inspirado em um romance O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do escocês  Robert Louis Stevenson, publicado em 1889, em Londres. A história se baseia em torno de uma busca incessante do médico Dr. Jekyll para provar que todos nós temos um lado cruel, mas que escondemos nas profundezas de nossas almas.  Sem crédito por parte da sociedade, Dr. Jekyll concebe uma fórmula científica capaz de provar sua tese, qual seja, de fazer emergir nossos sentimentos maléficos. Preocupados com os possíveis efeitos colaterais, o médico resolve usar-se como cobaia e ao beber o experimento desperta o seu alter ego demoníaco alcunhado de Mr. Hyde.

Certamente se o personagem Dr. Jekyll existisse nos dias atuais ficaria impressionado com como sua teoria seria respeitada sem que houvesse necessidade de nenhum esforço ou aparato científico.

Basta aderirmos a uma rede social qualquer, adicionarmos alguns “amigos”, soltarmos alguma opinião, e voilà: dezenas de impropérios serão desferidos contra nós a ponto de sermos apresentados a palavrões nunca d’antes conhecidos.

Esse ódio está presente em todo o nosso cotidiano. Não concorda? Demore cinco segundos depois que o sinal de trânsito ficar verde. Se quiser entrar na máquina do tempo e voltar à era medieval, demore dez segundos.

 

Pague em dinheiro trocado, se possível em moedas, as compras do supermercado, e ouvirá ao longo da fila características sobre a vida sexual de sua mãe até então desconhecidas.

Atrase meia-hora o atendimento do seu cliente e receberá um olhar flamejante desejando que você fosse para um lugar bem inóspito cujo nome termina com a palavra pariu.

Falta-me autoridade para indicar o motivo ou motivos pelos quais nos tornamos tão intolerantes, insensíveis e por vezes odientos. Meu palpite (por favor, é só uma opinião, minha mãe já faleceu) é que com a revolução digital ficamos mais expostos e percebemos que nossos mais comezinhos sentimentos são compartilhados por outras pessoas, o que invariavelmente, acabou nos incentivando a destilar a nossa repulsa como se fosse uma catarse demoníaca.

Humberto Eco disse que a internet deu voz aos imbecis (ele não se atreveu a dizer isso em uma rede social). Sem demonizar a internet, que é um mero instrumento, de fato há uma imensa proliferação de bobagens que nos alcançam com uma facilidade incrível.

O mundo fútil das selfies perfeitas então, tem sido um celeiro de incompletudes e carências que fazem parte de um corpo adoecido, triste e agressivo.

A meu sentir, um dos fatores que vem contribuindo sobremaneira para esse estado de malfeitos é a falta de respeito perante uns aos outros. Ao utilizar as plataformas digitais, ganhamos uma série de benefícios, mas como nada vem sozinho, amealhamos malefícios a que talvez não estejamos dando a devida atenção. A distância tem nos encorajado a ficar mais grosseiros, fazendo com que não tenhamos cerimônia em cometer qualquer ato desrespeitoso.

É evidente que precisamos melhorar, ou chegaremos a um nível de violência física e psicológica incontrolável. O antídoto para escondermos o Mr. Hyde que nos habita é simples e caseiro: seja analógico(a) nas relações com outro. Olhe mais para os olhos e menos para tela. Tecle menos e sinta mais a presença alheia. Ame, se possível, porém respeite sempre!

 

Autor: Dr. Jansen Oliveira

Consultor jurídico da SRRJ