Em 2012, assim que terminei a residência, graças à generosidade de grandes colegas reumatologistas, fui estimulado a iniciar atendimentos em consultório particular, sem convênios. A ideia era perfeita: eu já tinha um vínculo público, em um hospital onde tinha prazer em trabalhar (apesar da remuneração ruim) e, paralelamente, iria prestar atendimentos com calma e tranquilidade, em um ambiente agradável, ajudando pessoas que tinham recursos suficientes e percebiam valor no meu trabalho. No futuro, isso ajudaria na minha independência financeira e permitiria que eu dedicasse mais tempo à família, ao lazer e também aos pacientes do recém-inaugurado Serviço de Reumatologia do Hospital Federal de Ipanema.

Mas quem seriam esses pacientes? De onde eles viriam? Quem escolheria ser atendido por mim, um recém-formado, inseguro e cheio de dúvidas, com tantos ótimos reumatologistas no Rio de Janeiro? Por que alguém que paga caro por um plano de saúde vai optar por gastar ainda mais para ser atendido por mim, sendo que o convênio disponibiliza profissionais tão bons ou ainda melhores que eu e certamente mais experientes?

Eu não tinha a resposta para essas perguntas. Mas os meus colegas continuavam me estimulando: “calma, leva tempo”. E assim foi. No início, algumas tardes com um ou dois pacientes, outras sem nenhum. As consultas de primeira vez davam sempre um frio na barriga. Mas as de retorno sempre eram muito agradáveis. As ligações e as dúvidas começaram. Os exames deixados no consultório ou enviados por e-mail (ainda não havia WhatsApp). Alguns laudos, relatórios e LME’s também. Depois surgiram, aos poucos, pacientes internados, nos melhores e piores hospitais possíveis. Sempre casos muito desafiadores (como é frequente na nossa especialidade). Comecei também a responder pareceres em um hospital privado em que trabalhava, fazendo com que experimentasse situações em que precisava me expor, principalmente no CTI.

Com o passar dos primeiros anos, eu percebi que já tinha a reposta para as perguntas que fiz acima. E tudo se resumia a uma palavra: DISPONIBILIDADE.

Me tornei disponível. Eu não só era disponível, eu queria ser disponível. Eu queria atender aquelas pessoas; queria que confiassem em mim; queria assumir suas condutas nos hospitais; queria estudar o caso delas com todo o cuidado, ouvir com atenção as histórias que me contavam, discutir com colegas mais experientes ou de outras especialidades; queria que ligassem quando fossem tomar um medicamento ou uma vacina e que me contactassem quando estivessem na emergência; que me avisassem se piorassem ou melhorassem.

Claro que o paciente busca qualidade técnica, ética, transparência e atenção, mas o diferencial que vai fazer com que ele busque o atendimento particular em vez de procurar um médico do seu convênio é a disponibilidade. Um reumatologista credenciado a um plano de saúde muitas vezes tem ótima técnica, formação e responsabilidade, mas dificilmente (sem generalizar, claro), vai ter a mesma disponibilidade de um médico particular. Pelo simples fato de ter um volume significativamente maior de pacientes e menos tempo disponível para cada um deles.

Hoje, 7 anos depois, o consultório particular é um ambiente prazeroso, em que me sinto confortável, protegido, literalmente em casa. Além disso, consome uma parcela de tempo significativa da minha semana e se tornou minha principal fonte de renda.

Entendo que nossa especialidade é carente de profissionais, há uma demanda reprimida enorme (ainda mais evidente durante as epidemias de Chikungunya) e existe espaço para muitos reumatologistas que queiram estar disponíveis para pacientes particulares.

A escolha de fazer consultório particular ou atender pacientes dos planos de saúde é muito individual – cada um sabe o que é mais confortável para si. Mas penso que seria interessante haver um movimento de migração (mesmo que com as mais novas gerações, incluindo a minha) dos convênios para o mercado privado. Talvez seja uma maneira de fazer os convênios perceberem o valor diferenciado dos profissionais da nossa especialidade, repleta de doenças complexas e multifacetadas.

Quando o propósito passa a ser cuidar das pessoas com essas doenças, a complexidade é ainda maior.

 

 

Autor: Luiz Cezar Melichio Motta

Reumatologista do Hospital Federal de Ipanema e do Hospital Barra D’or

Membro da SRRJ