A tecnologia móvel está em toda parte, e é uma inovação perturbadora. Quem esteve no EULAR 2019 deve ter percebido as etiquetas eletrônicas nos seus crachás, mas podem ter esquecido que quando se inscreveram para esse congresso, assinaram uma autorização para esses dispositivos habilitados para GPS para monitorar de quais sessões o congressista participaria e quando. O uso de “tecnologia vestível” (wearable – qualquer tecnologia baseada em dispositivos que estejam conectados diretamente ao usuário) para coletar dados sobre os movimentos, localização e níveis de atividade é um campo de interesse clínico. Se forem combinados os dados de sensores do corpo ou smartphone com aplicativos para registrar sintomas auto-relatados, teremos uma visão muito abrangente do dia a dia dos indivíduos. Uma revisão sistemática publicada em 2017 identificou 17 aplicativos disponíveis no Android ou iOS adequados para monitorizar de sintomas de artrite reumatoide. A incorporação da tecnologia para avaliação de sintomas é benéfica para pacientes e profissionais de saúde. As condições reumatológicas envolvem frequentemente uma série de alterações físicas e psicológicas muitas vezes difíceis de capturar em consultas ambulatoriais de frequência e duração limitada. A tecnologia móvel pode facilitar o monitoramento dos sintomas priorizados pelos pacientes, porém geralmente negligenciados pelos profissionais de saúde durante as consultas devido à falta de tempo. Destaca-se a depressão, que além de ser muito prevalente, está associada a uma série de desfechos indesejáveis. O fato de o paciente ter acesso a mais informações sobre sua própria saúde e sintomas, particularmente aqueles como depressão, pode aumentar a ansiedade e promover comportamentos desnecessários de busca de ajuda. O critério mais importante para o sucesso e implementação dessa tecnologia é a utilidade percebida pelo usuário do sistema: ou seja, a avaliação de se os benefícios superam os riscos. Esses dispositivos ou aplicativos fornecem dados em nível individual, requerendo processamento extensivo e interpretação cuidadosa, podendo aumentar a carga de trabalho do clínico. Apesar de sabermos que a idade da “tecnologia vestível” (wearables) representa uma mudança de paradigma de como as condições de longo prazo são medidas, ela também representa uma inovação perturbadora, exigindo monitoramento.

 Adaptado de: Faith Matcham, Matthew Hotopf, James Galloway.

Rheumatology, Volume 58, Issue 7, July 2019, Pages 1126–1127.

 

Autor: Dr. Carlos Augusto Andrade

Reumatologista da SRRJ