Pesquisas qualitativas sugerem que aproximadamente um um quarto dos pacientes com gota usa produtos de cereja (cerejas, extrato de cereja ou suco de cereja) para tratar gota.
Recentemente foi publicada uma revisão sobre esse tema por três pesquisadores (Marcum Collins, Kenneth Saag & Jasvinder Singh) de Birmingham, nos Estados Unidos da América, no periódico Therapeutic Advances in Musculoskeletal Disease (2019, Vol. 11: 1–16). Os autores ressaltaram que, apesar da disponibilidade de terapia eficaz para reduzir os níveis séricos de urato e de antiinflamatórios para o tratamento da gota, há um interesse considerável em novas abordagens de tratamento para essa doença.

Devido à baixa adesão ao tratamento, contra-indicações, ineficácia ou eficácia parcial e aos eventos adversos, grande proporção de pacientes com gota não pode ser tratada com os medicamentos uricorredutores disponíveis atualmente. Pacientes preferem estratégias de autogestão da doença, como modificação da dieta, exercício e redução de peso. Assim, opções de tratamento adicional para a gota, incluindo medicamentos complementares como cerejas, são de grande interesse.

A cereja é uma pequena fruta rica em nutrientes (vitaminas A, C, E e fenólicos) que se apresenta como opção para tratamento não-farmacológico de uma infinidade de doenças. O reconhecimento das propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias das cerejas acarretou a condução de vários estudos avaliando seus benefícios nos pacientes com gota, doenças cardiovasculares e câncer.

Os resultados desses estudos indicam que as cerejas e seus produtos apresentam propriedades antioxidantes, capacidade de inibir processos envolvidos na resposta inflamatória aos cristais de urato e capacidade de diminuir a reabsorção óssea característica das erosões ósseas gotosas. Fenólicos econtrados abundantemente nas cerejas, foram associados à inibição da IL-6, TNF-α, IL-1β, IL-8, COX-I e COX-II, bem como a regulação negativa da osteoclastogênese mediada por NFkB, sugerindo que as cerejas podem ter a capacidade de reduzir a inflamação aguda e crônica e que desempenham um papel importante nas crises recorrentes de gota e na artropatia destrutiva crônica realacionada a essa doença.

Foi publicado um estudo case-crossover que usou pesquisa online (n = 633), no qual o consumo de cereja por um período de dois dias foi associado a um risco 35% menor de ataques de gota, e qualquer uso de extrato de cereja reduziu o risco em 45%. A combinação da ingestão de cerejas com alopurinol foi associada à redução de 75% no risco de crises de gota. O pico do benefícios “antigota” de cerejas foi atingido com cerca de três porções após um período de dois dias.

Em outro estudo com 24 pacientes que tomaram suco de cereja concentrado por quatro meses ou mais como profilaxia crônica, o número de crises de gota por ano diminuiu de quase sete para duas. Apesar de 45% desses pacientes não estarem em terapia uricorredutora, a taxa de crises diminuiu. Após quatro a seis meses, 50% de todos os pacientes que consumiram suco de cereja concentrado ficaram livres de crises; sendo que 62% dos pacientes adicionalmente submetidos a terapia uricorredutora estavam livres dessas crises, sugerindo complementaridade dos efeitos da cereja quando usada junto com alopurinol.

Dados os potenciais efeitos benéficos das cerejas, elas estão tornando-se uma opção mais atraente, e claramente desempenham um papel no manuseio da gota. Infelizmente não há grandes ensaios clínicos randomizados (ECR) sobre o uso de cerejas no tratamento da gota, e várias perguntas ainda permanecem sem resposta. Com base nos dados apresentados aqui e nos próximos resultados de ECR rigorosos e outros estudos translacionais, parece que uma possível opção futura pode ser tratar gota usando uricorredutores com “uma cereja no topo”.

Autor: Dr. Carlos Augusto Andrade
Reumatologista da SRRJ