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Acurácia dos testes comerciais para COVID-19 disponíveis no Brasil: comentários sobre uma meta-análise

Um dos problemas que temos enfrentado nos últimos dois meses refere-se à acurácia dos testes diagnósticos para COVID-19. Da mesma maneira que ocorre com quaisquer testes diagnósticos, sua utilização clínica depende tanto das características da população testada (probabilidade pré-teste) quanto, obviamente, das características intrínsecas do teste. Porém, essa é outra história e ultrapassa o interesse desta publicação. O importante é que testes devem ser solicitados e interpretados de uma forma muito racional. Caso contrário, provavelmente atrapalham muito mais do que ajudam o manejo dos casos de quaisquer enfermidades.

É importante relembrar que a detecção de anticorpos IgM é frequentemente interpretada como um indicador de infecção aguda, enquanto a detecção de anticorpos IgG representa infecção / imunidade anterior.

Considerando que a precisão dos testes disponíveis comercialmente para o COVID-19 no Brasil permanece incerta, foi publicada recentemente, por um grupo de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, no periódico The Brazilian Journal of Infectious Diseases, uma metanálise que abordou este tema (Castro R, et al. COVID-19: a meta-analysis of diagnostic test accuracy of commercial assays registered in Brazil. Braz J Infect Dis. 2020. https://doi.org/10.1016/j.bjid.2020.04.003).

Os autores justificaram a importância do artigo ressaltando que entre as medidas essenciais para reduzir a carga da pandemia do COVID-19 estão: testes em larga escala, diagnóstico rápido e isolamento imediato de casos, juntamente com rastreamento rígido e auto-isolamento preventivo de contatos. Acrescentaram ainda que, embora testes em massa sejam uma pedra angular para reduzir o ônus do COVID-19, a precisão dos testes disponíveis comercialmente para o COVID-19 no Brasil ainda não está clara.

Como se trata de um assunto extremamente novo, para evitar a limitação de não conseguirem identificar todos os testes, Castro et al fizeram buscas na plataforma existente no website da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Seguiram de forma adequada as recomendações para  publicação de metanálises, com dois autores independentemente extraindo informações referentes aos testes.

Foram encontrados 16 testes. Destes, 11 detectam anticorpos anti-IgM e/ou IgG da síndrome respiratória aguda grave por coronavírus (SARS-CoV-2) [nove para IgM / IgG; um para IgM e outro para detecção de IgG] no soro, plasma, sangue total (ou amostras de lancetadas nos dedos); três detectam o ácido nucleico (RNA) e dois detectam o antígeno (Ag) da SARS-CoV-2 em swabs nasofaríngeos e / ou orofaríngeos. Todos os testes consideraram os ensaios moleculares como o padrão-ouro. Ressaltaram ainda que 11 testes são considerados como “testes para beira do leito” (point of care testes - POC): nove detectando anticorpos IgM / IgG nas amostras de lancetada de dedo e dois detectando SARS-CoV-2 Ag nos swabs nasofaríngeos e / ou orofaríngeos, com varição de cinco a 30 minutos para liberação do resultado.

As medidas de acurácia diagnóstica combinadas e seus intervalos de confiança (IC) de 95% foram: (i) para anticorpos IgM (oito testes, 951 amostras), sensibilidade (Se) = 82% [76–87]; especificidade (Sp) = 97% [96-98]; razão de chances de diagnóstica (DOR) = 168 [92–305] e curva sumária característica de operação do receptor (SROC) = 0,98 [0,96–0,99]; (ii) para anticorpos IgG (oito testes, 1503 amostras), Se = 97% [90–99]; Sp = 98% [97–99]; DOR = 1994 [385-10334] e SROC = 0,99 [0,98–1,00]; e (iii) para detecção de SARS-CoV-2 por ensaios de antígeno ou moleculares em swabs naso / orofaríngeos (quatro testes, 464 amostras). Se = 97% [85-99]; Sp = 99% [77–100]; DOR = 2649 [30–233056] e SROC = 0,99 [0,98–1,00].

Em relação ao desempenho isolado de cada teste, destaca-se para o IgM  o teste MedTeste Coronavirus (COVID-19) IgG/IgM com Se=86,8% e Sp=98,6% que é um teste rápido cujo resultado é liberado em 10 minutos. Para o IgG, dois testes apresentaram pares Se/Sp exatamente iguais (100% / 98%), o CORONAVIRUS IgG/IgM (COVID-19) e o Anti-COVID-19 IgG/IgM Rapid Test, sendo que ambos são testes rápidos, o primeiro com resultados em 20 minutos e o segundo em 10 minutos. Finalmente, dos quatro testes rápidos para detecção do vírus com swabs de naso ou orofaringe pelo método da reação da polimerase em cadeia em tempo real (RT-PCR), o que apresentou melhor desempenho foi o Cobas SARS-CoV-2, com Se e Sp de 100%.

Os pesquisadores ressaltaram que a detecção de SARS-CoV-2 usando kits de teste de RT-PCR são considerados o padrão-ouro para o diagnóstico de COVID-19. Porém, destacaram que esta técnica requer laboratórios certificados, equipamentos caros e técnicos treinados. Por outro lado, chamaram atenção para o fato de que para o diagnóstico de COVID-19, os testes rápidos para detecção de anticorpos específicos de SARS-CoV-2 nas amostras de sangue representam uma boa escolha, podendo os anticorpos IgSARS-CoV-2 IgM serem detectados após 3-6 dias e os anticorpos IgG após oito dias do início dos sintomas. Contudo, ressaltaram que estes testes são limitados devido às altas taxas de resultados falso-negativos (10 a 44%) quando coletados na fase inicial do início dos sintomas.

Em relação aos testes de antígeno e / ou ensaios moleculares usando amostras de nasofaringe e orofaríngeas, destacaram que esses testes apresentaram alta precisão na detecção de SARS-CoV-2.

Os autores alertaram que utilizaram informações fornecidas pelos fabricantes durante o processo de registro de testes na ANVISA, sem terem recebido dados de significado clínico em relação à validade diagnóstica de cada teste.

Concluíram, relatando que existem poucos resultados de validação com base em evidências publicados no Brasil, sendo necessários estudos futuros que abordem o desempenho diagnóstico de testes para COVID-19 na população brasileira.

Análise da acurácia diagnóstica combinada dos testes (n = 4) usando swabs nasofaríngeos e / ou orofaríngeos para detecção de antígeno ou ácido nucleico de SARS-CoV-2.
Análise da acurácia diagnóstica combinada dos testes  (n = 8) para detecção de anticorpos IgM contra SARS-CoV-2.
Análise da acurácia diagnóstica combinada dos testes  (n = 8) para detecção de anticorpos IgG contra SARS-CoV-2.

Autor do resumo: 

Carlos Augusto F. De Andrade

Doutor em Ciências, Médico (Reumatologista) 

Diretor Científico e Presidente Eleito  da Sociedade de Reumatologia do Rio de Janeiro (SRRJ)