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Gestação em tempos de COVID-19

Em tempos de pandemia de um vírus até então não conhecido, um dos principais problemas emergentes é a exposição durante a gestação. Infelizmente, assim como para outras questões, as respostas na literatura são escassas e as evidências são fracas, principalmente baseadas em relatos de caso e coortes pequenas, a maior parte proveniente da experiência na China, primeiro local atingido pela doença.


Inicialmente a preocupação era baseada nas informações disponíveis sobre os outros dois coronavírus causadores das epidemias anteriores (SARS e MERS) e o vírus influenza H1N1, que foram relacionados a várias complicações maternas e fetais. Além disso, outras infecções virais (a exemplo da Zika, situação recentemente vivida pelos brasileiros) são sabidamente conhecidas com associadas a malformações fetais, abortamentos e retardo do crescimento intrauterino.


Até o momento, na literatura, as maiores coortes relatadas incluem menos de 50 gestantes. O número é pequeno possivelmente porque a maior parte dos trabalhos incluiu apenas gestantes hospitalizadas por motivos clínicos e/ou obstétricos, principalmente no segundo e terceiro trimestre da gestação.


Aparentemente entre as gestantes expostas não houve diferença, em comparação com adultos da mesma idade, com relação ao quadro clínico, tanto na frequência dos sintomas quanto na gravidade, bem como nas alterações laboratoriais e radiológicas. Até o momento só há descrição de dois casos de evolução grave do quadro respiratório materno, mas não ficou claro se as pacientes apresentavam outras comorbidades. Esses achados sugerem que, aparentemente, a COVID-19 é menos letal para gestantes que a SARS e a MERS.


Uma revisão rápida publicada1 apontou para maior frequência de prematuridade (cerca de 47% das gestantes hospitalizadas), entretanto não foi possível determinar uma causa específica, que na maior parte dos casos foi por indicação obstétrica. Uma das preocupações desses dados foi que essa taxa elevada pode exercer impacto considerável sobre os serviços de saúde se o pior cenário (70 a 80% da população infectada) for considerado.
Alguns trabalhos reportaram a testagem para o SARS-Cov2 em fluidos maternos e dos recém-natos (swab de orofaringe, líquido amniótico, sangue do cordão umbilical e leite materno), e até o momento não foi detectada presença do vírus, de forma que não é possível, até o momento, confirmar a transmissão vertical intra-uterina da doença. Uma análise2 de 10 recém-nascidos pré-termos (a partir de 31 semanas de gestação) reportou 2 recém-nascidos com complicações graves (sendo 1 óbito), que foram atribuídas à prematuridade. A testagem viral foi feita em 9 bebês, todos negativos.
Tempos de escassez de evidências fortes de uma pandemia recente são difíceis tanto para os profissionais de saúde da linha de frente quanto para os desenvolvedores de políticas públicas e nossas pacientes, em que as dúvidas e a ansiedade não param de surgir. É o momento de reforçar as medidas preventivas para todos os segmentos populacionais, na tentativa de reduzir ao máximo a transmissão da doença.

  • Referências:
  • Mullins E, Evans D, Viner RM, et al. Ultrasound Obstet Gynecol. 2020 Mar 17.
  • Chen H, Guo J, Wang C, Luo F, Yu X, Zhang W, et al. Transl Pediatr 2020;9(1):51-60.
  • Liu D1,2, Li L1,2,  Wu X1,2, et al. AJR Am J Roentgenol. 2020 Mar 18:1-6
  • Jiao J. J Med Virol. 2020 Mar 17
  • Chen H, Guo J, Wang C, et al. Lancet. 2020 Mar 7;395(10226):809-815.

Autora do resumo: Ingrid Bandeira Moss

Reumatologista da SRRJ