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Quarentena na modernidade líquida

O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman definiu com genialidade o comportamento da humanidade na era digital. Deixou uma obra vasta e paradigmática sobre a fragilidade das relações sociais, dos movimentos fugazes das economias e da produção, que ele descreveu como tendo a característica dos líquidos. Em um dos seus livros, A Modernidade Líquida, Bauman definiu a liquidez de nossas relações e modo de vida: “fluidez” é a qualidade de líquidos e gases. (…). Os líquidos, diferentemente dos sólidos, não mantêm sua forma com facilidade. (…) os fluidos se movem facilmente. Eles “fluem”, “escorrem”, “esvaem-se”, “respingam”, “transbordam”, “vazam”, “inundam” (…) Essas são razões para considerar “fluidez” ou “liquidez” como metáforas adequadas quando queremos captar a natureza da presente fase (…) na história da modernidade”.

Na época atual, vivemos o ritmo incessante das transformações, o que gera angústias e incertezas, dando lugar a uma nova lógica, pautada pelo individualismo e pelo consumo. De uma maneira inesperada, a sociedade que digita mensagens andando, que para no meio da rua para tirar uma selfie, que se orgulha do número de views e seguidores que acumula no Instagram, viu-se acuada por uma ameaça microscópica e letal.

A pandemia mundial provocada pelo novo Coronavírus (COVID-19) vem acumulando números assustadores em termos de mortalidade. O vírus se alastra pelo globo terrestre não só desafiando a ciência, mas a psique de cada pessoa. Para diminuir o impacto das contaminações, governos impõem e recomendam o enclausuramento. Estabelecimentos comerciais e autarquias públicas interrompem suas atividades. Sem saber exatamente como lidar com os riscos, a ordem é ficar em casa, por hora a melhor alternativa de combate à pandemia.

Estamos no início do isolamento na Terra de Santa Cruz, mas já se pode notar comportamos que há muito não se viam. Os membros das famílias passaram a interagir de uma forma incomum nesta “modernidade líquida”. Todos se observam para identificar sinais de risco. A recomendação de evitar a proximidade faz perceber como os abraços andavam escassos. Muitos se emocionam com as páginas de um livro, às vezes o primeiro em toda vida. Jogos de tabuleiros emergem das gavetas, como quem venceu a batalha da fluidez do tempo. Vê-se uma interatividade maior durante a pandemia do Coronavirus.

Essa aproximação, emergencial e talvez temporária, nos impõe a todos uma adaptação e ao mesmo tempo uma reflexão. Seria uma oportunidade de reavaliarmos a liquidez de nossos comportamentos? Seria esse tempo de clausura uma espécie de freio de arrumação? Ou, passado o medo, voltaremos à vida líquida e simplesmente deixá-la escorrer como antes da pandemia?

As reflexões são desafiadoras e prementes, a ponto de observarmos, já neste início de isolamento, diferentes ações entre as pessoas. Se, por um lado, alguns descobrem e redescobrem formas de interagir, outros contam passos em casa com polegar digitando incessantemente no WhatsApp. Algumas famílias conseguem organizar-se nas tarefas domésticas, enquanto outras vivenciam o caos sem a presença dos empregados no dia-a-dia.

Em meio ao inesperado, existem ainda os mensageiros do apocalipse, que se regozijam com a ideia de finalmente terem acertado quanto ao juízo final. Há também os que veem conspiração em tudo e, com coragem ou estupidez, a depender do grau das lentes de quem vê, enfrentam o vírus de peito aberto, tentando fazer com que a realidade volte ao “normal”. Mais comuns em épocas de restrições prolongadas, há aqueles que já dão sinais de crise de abstinência. O estoque de selfie em todos os cômodos da casa se esgotaram. As frases de efeito para o facebook já não são tão criativas. Os sorrisos no Instagram estão amarelados. O número de visualizações vai ficando cada vez menor. “Preciso de novos cenários para meu Insta…”; “Como irei transparecer felicidade em casa e, ainda por cima, com minha família?”; “Eu já fiz três posts fritando ovo…”.

Mas fato é que devemos seguir “isolados” em nosso lar, por mais desafiador que isso possa parecer. A colaboração de todos é fundamental para evitar o contágio da doença. Precisamos seguir as recomendações médicas. E já que é inevitável, é bom aproveitar para revirar papéis, rever fotos, organizar guarda-roupas, estudar, ler, conversar e até trabalhar, nos casos em que a distância não é impedimento.

É tempo de reavaliar conceitos, de repensar a fluidez da vida a escorrer entre os dedos. Quem sabe a crise não é a oportunidade de dar um pouco de solidez às relações humanas e, principalmente, aos nossos comportamentos.

Autor: Dr. Jansen do Santos Oliveira

Consultor jurídico da SRRJ